Em minhas conversas com clientes dos mais variados setores de atividade, frequentemente me deparo com a seguinte pergunta: mas como pode o nosso país, com tanto sol e tanto território, praticamente não ter eletricidade a partir da energia solar? Recentemente a Alemanha foi ultrapassada pela China no ranking dos países com maior potência solar fotovoltaica instalada. Ainda assim, a Alemanha terminou 2015 com 40 Gigawatts (GW) instalados. Em termos de insolação, os melhores lugares da Alemanha são piores que os piores lugares do Brasil. Porque será que a Alemanha tem e nós não? Muitos acreditavam que era porque a tecnologia ainda não era madura e só estava disponível para países desenvolvidos. Mas não é isso. A principal tecnologia fotovoltaica empregada atualmente no mundo tem mais de trinta anos.

O Brasil sempre teve uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Segundo o Ministério das Minas e Energia (MME), em 2014, 39,4% da oferta de energia do país veio de fontes renováveis, contra uma média mundial de 13,6%. Se contarmos só a energia elétrica, temos 74,6% (Brasil) contra 22,6% (mundo).

A nossa posição de destaque nesse ranking se deve à fonte hidrelétrica, limpa e barata. 65,2% da oferta de eletricidade veio dessa fonte em 2014. Historicamente, e não sem razão, nosso planejamento energético apoiou-se fortemente neste tipo de energia. Basta ver que a sua participação em 1980 era de 92,5% (ainda segundo o MME). Uma das premissas fundamentais desse planejamento é, ou ao menos foi: a água é “infinita”. Só que a partir de 2013, descobrimos que não. Períodos de seca alongada em diversas regiões do país levaram à maior crise hídrica de que se tem notícia. O (prioritário) uso humano da água passou a restringir o seu emprego na produção de energia. Então o planejamento teve que mudar, considerando o esgotamento da fonte hidrelétrica entre 2025 e 2030 (calma! esgotamento significa apenas que o que havia para se explorar foi explorado, não que o que existe vai acabar).

Com o trauma da crise do apagão de 2001 e 2002, a primeira opção para aumentar a segurança energética, fundamental para o desenvolvimento de qualquer país, foi a fonte termelétrica. Embora a adoção desse modelo tenha fornecido maior robustez à operação da rede, essa fonte, além de mais cara, é altamente poluente. Nossa matriz energética começou a ficar mais suja.

A partir de 2008 a fonte eólica passou a ser desenvolvida. Por meio de leilões de venda de energia, a ANEEL passou a incentivar o desenvolvimento dessa fonte, que hoje é uma realidade. Segundo a ANEEL, em JAN/2016 a fonte eólica alcançou quase 8 GW de capacidade instalada, correspondentes a 5,5% da capacidade do país. É sabido que, com a severidade da crise hídrica no Nordeste, esta região somente não entrou em racionamento em 2015 devido à energia gerada pela fonte eólica.

Mas nem tudo são maravilhas com a fonte eólica. As suas limitações principais são a natureza intermitente dos ventos e as limitações geográficas das áreas favoráveis.

A fonte biomassa também foi bastante desenvolvida. A geração de energia a partir do bagaço de cana é a principal forma de exploração, tendo representado 5,3% da oferta de energia em 2014. Esta fonte,a exemplo da eólica, também possui limitações geográficas para produção.

Bom, voltemos à energia solar. Porque precisamos dela? Basicamente para manter a matriz energética limpa e ainda assim permitir a expansão da capacidade de geração, de forma a não limitar o crescimento econômico. O MME prevê que a capacidade de geração deva atingir 210 GW em 2024 (em 2014 tínhamos 134 GW). Dessa capacidade, 85% será de energias renováveis. A hidráulica continuará liderando com 40%, seguida pela eólica (26%), solar (10%) e biomassa (9%). A fonte solar terá ultrapassado a biomassa, com 7,4 GW. Todas as fontes renováveis citadas são complementares, e nenhuma consegue ofertar sozinha o que o país irá demandar.

Mais uma coisinha: a fonte solar é praticamente ilimitada em termos de área geográfica no Brasil. Segundo o Atlas Brasileiro de Energia Solar, “Os valores de irradiação solar global incidente em qualquer região do território brasileiro (1500-2500 kWh/m2 ) são superiores aos da maioria dos países da União Européia, como Alemanha (900-1250 kWh/m2 ), França (900-1650kWh/m2 ) e Espanha (1200-1850 kWh/m2 ), onde projetos para aproveitamento de recursos solares, alguns contando com fortes incentivos governamentais, são amplamente disseminados”. Falarei depois sobre incentivos.

Bom, nesse post vimos porque a fonte solar é importante para o futuro do nosso país. No próximo post veremos quais são os obstáculos ao seu crescimento e o que está sendo feito, ou ao menos poderia ser feito, para resolvê-los.